PROTÉTICA

diploma

 

 

Nos idos 1980, quando eu estava para terminar o ensino fundamental, então ginásio, me deparei como todo mundo com a pergunta que mais atormenta o jovem,

_O que você vai ser quando crescer?

Eu, que nunca tinha me preocupado muito com isso, me vi pressionada a decidir.

Estudante de uma escola publica municipal, a realidade, minha e de meus colegas era pensar em algo que nos desse alguma possibilidade profissional. Quem ali não trabalhava, ainda, teria que começar logo. Com 15 para 16 anos, todos já pensavam em trabalhar pra ajudar em casa. A decisão passava pelo vestibulinho das escolas publicas mais bem cotadas na região (Zona Norte de São Paulo). A maioria ia fazer o ensino médio convencional (antigo colegial).

Eu, por indicação de uma colega, fui fazer prótese. Segundo ela, eu havia aventado o interesse pela odontologia, e naquela ocasião, prótese pareceu o caminho mais sensato. Eu nunca descobri em qual momento disse isso a ela. Tenho pra mim, até hoje, que foi conspiração do Universo.

Como a maioria dos mortais, eu não tinha a menor idéia do que fazia um protético. Ou melhor, sabia que eles faziam dentadura.

Fiz a prova e passei. Era a primeira turma de Técnicos em Prótese Dentária do EMPSG Prof Derville Allegretti. Fomos cobaias.

O primeiro ano era básico, com as matérias convencionais, mas no segundo, quanta diferença!

Finalmente eu estava livre de historia e geografia, mas meu calvário passou a atender pelo nome de Fisica e Quimica. Tudo bem, eu sobrevivi!

Mas o mais interessante era o universo que se abria na nossa frente. A maioria de nós estava ali como trampolim para a odontologia, mas tinha os que queriam seguir a carreira de protético e ainda os que estavam ali sem saber muito o por que.

Eu, por exemplo, nunca tinha parado pra pensar em quantos dentes tem um adulto ou uma criança. A diferença que existia entre os molares e incisivos, ou que cada um tinha uma finalidade. Pra mim, dente era dente, e servia pra comer e sorrir.

Fomos solenemente apresentados a essa nova realidade, e a qual, devo admitir, adorei.

O laboratório era “novíssimo”, e tinha até um inclusor a vácuo, modernidade das modernidades para a época.

Lá, nós fomos  apresentados ao LeCron, espatula 7, mufla, troquel, articulador, RAAQ e RAAT, pedras e lixas diversas, ligas metálicas, ceras, gessos, etc., etc., etc.

Como era um curso recém montado, muitas foram as falhas, mas nós as superamos. Os dois anos de formação técnica não foram suficientes. A burocracia, por exemplo, demorou a liberar verba para que fosse montado o setor de PPR. Nos formamos sem termos aprendido a encerar e fundir armações. Ficamos só na montagem e acrilização. Fornos de metalo cerâmica também eram muito caros e ficamos limitados a metalo-plasticas, tipo venner.

Eu, particularmente tive um pouco de dificuldade na cadeira de Anatonia e Escultura Dental. Esse carma me perseguiria por anos.

Nunca exerci a Prótese como profissão, mas as bases e o conhecimento que adquiri naqueles anos, nortearam muitas das minhas conquistas.

Hoje, no ano que completarei 30 anos de formada, não consigo me imaginar em outro caminho.

Encerar uma coroa total metálica, incluir, fundir e dar o acabamento é uma das memórias mais gratificantes que tenho daquele período.

E de pensar que hoje eu sou fruto da escolha que fiz aos 15 anos.

Bendita escolha!!!

Published in: on 5 de março de 2013 at 20:04  Deixe um comentário  
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Dentística Restauradora

A

Agora sim!!!

U-hu! Finalmente nosso primeiro contato com os dentes.

Ou melhor, com o mais próximo de um dente que se tinha chegado até então. Os manequins.

Nesta cadeira nós aprendemos a fazer aquilo que efetivamente esperávamos fazer: Restaurar dentes.

Tudo começa pelo preparo, como tudo, simples!!!

Aulas e aulas seguidas sobre Cl I, II, III, IV,V de Black.

A apostila das aulas praticas era um espetáculo à parte.

Aula #1 – Preparo para Cl I de amálgama, (Sim, amálgama) no dente 46 com visão direta – Iniciar abertura pela lesão de cárie no sulco central em direção a fossula mesial com broca esférica #1014. Ampliação com broca cilindrica #1092. *Atenção para a extensão preventiva, cauda de andorinha,  para as áreas de risco* Retenção adicional com broca cônica invertida #1032

Aula #2 – Restauração da cavidade preparada na aula anteior. Porciona+Pesa+Tritura o Amálgama e o mercurio.  Com a ajuda de um porta amálgama, preencha a cavidade previamente forrada com verniz cavitário, com pequenas porções. Condense, Esculpa e Bruna.

Aula #3 – Preparo para Cl II  OD de amálgama no dente 25 com visão indireta. Aqui cabe uma explicação. Pra quem não sabe, visão indireta é quando todo o trabalho é feito apenas olhando-se pelo espelho clínico. Imagine a cena,  se for capaz. Como se sabe, pelo espelho a imagem inverte, e o que era direito vira esquerdo, por exemplo. Mas eu vou poupá-los dos detalhes sórdidos. – Iniciar abertura pela lesão de cárie na fóssula distal com broca esférica #1014. Abertura da caixa proximal e ampliação com broca cilindrica #1092. Aplainamento na parede axial e arredondamento do angulo cavo axial com instrumentos cortantes manuais. Sim, eles existem, fazem o trabalho da alta rotação, mas neste caso, a rotação é sua =(

Aula #4- Restauração da cavidade preparada na aula anteior. Adaptar uma matriz de 5mm (não tínhamos as em forma de bumerangue) num porta matriz tipo Toflemire (um instrumento muito próximo de um torturador medieval). Adapte no dente preparado. Coloque as cunhas de madeira e acomode o amálgama no preparo, iniciando pela caixa proximal. Na aula seguinte era dado o polimento com brocas 12 laminas e borrachas marrom, verde e azul. Nesta sequência.

Aula #n – Preparo Cl III M para resina composta no dente 12. Proteja o dente vizinho com uma tira de metal.  Acesse por palatino na altura no 1/3 médio da coroa com broca esférica #1014.  Faça retenções adicionais com broca conica intertida  na parede axial. Com broca tronco conica #1065 faça um bisel longo em forma de meia lua na parede vestibular.

Aula #n+1 – Restauração da cavidade preparada na aula anterior, neste caso, resina foto. Naquela epoca as resinas eram as de primeira geração. Nada de opacos ou dentinas. Se o bisel não fosse bem feito a união entre dente e resina ficava muito visível. Nada conservadores estes preparos. Técnica incremental e acabamento com brocas finas,  borrachas e lixas.

E assim foi, passando pelas Cl IV e V. Em todos os preparos tinhamos a orientação de remover o tecido cariado (imaginário) com broca esférica em baixa rotação e curetas escariadoras.

Na minha época os manequins eram de um material plástico, só a boca, bem mole. Algo como um articulador charnera com maxila e mandibula. Nada de labios, ou lingua ou ainda bochecha, como os que se vê atualmente. Maravilhoso! Podia-se ver o dente como numa tomografia, olhando-se pela nuca.

O melhor, ou o pior, era ver os resultados finais.

Alta rotação em mãos nada treinadas, brocas diamantadas novas e dentes de manequim moles, as cavidades frequentemente viravam atipicas.

Mas, injustiça das injustiças, aberturas feitas com visão indireta não poderiam ser avaliadas com visão direta, né não?!?!

Mas, fazer isso na boca, com lingua, gengiva, bochecha, sangue e muiiita saliva, aí sim é que seria dificil! Sem falar no risco de atingir o canal.

Essa foi a minha porta de entrada para as alegrias e traumas da odontologia restauradora.

E confesso: Nada tenho a reclamar =)

 
Published in: on 16 de agosto de 2012 at 09:00  Comments (1)  
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Materiais Dentários

Balança de Crandall, gral e pistilo

O cara que vai ao dentista pra colocar uma “massinha” no dente, ou um “pivot”, ou ainda uma “chapa”, não pensa, efetivamente, no material que será usado.

Pois é, nós pensamos. E como!!!

A cadeira de Materiais Dentários é mais uma daquelas que, se não tirava nosso sono, pelo menos atrapalhava!

Nela nós aprendemos a composição, indicação e contra indicação de tudo aquilo que usamos para devolver a saúde e função dos dentes.

Polímeros, ligas metálicas, gipsita, elastômeros, quelantes e vernizes.

Forradores, restauradores temporários, cimentos, restauradores definitivos, diretos e indiretos, tudo estudado no detalhe do detalhe.

E claro, tudo muito subjetivo, afinal, ainda não colocávamos a mão na massa.

Reação e tempo de presa, proporções, biocompatibilidade, materiais antagônicos.

Será que ainda se estuda os cimentos de oxido de zinco e eugenol tipo  I, II, II e IV???

Propriedades e composições devidamente aprendidas, vamos pôr em prática.

E como tudo na graduação, as aulas práticas eram sempre uma incógnita. Transformar em ação tudo que tínhamos em imaginação era temeroso.

Bora pro laboratório. Modelo nas mãos muita curiosidade e coragem. Era mais ou menos assim:

Pasta zinco enólica: Dispense partes iguais das duas pastas sobre a placa de vidro. Espatule bem até ficar homogênea. Preenche a moldeira individual, leve em posição e deixa tomar presa , remove e…  passa as proximas 4h tentando limpar a placa e a espatula. Muito utilizada para fazer depilação de bigodes.

Godiva em placa: Amolece a placa na água morna, num dispositivo muito prático, parecido com um coador de café gigante. Acomode na placa do garfo do articulador que vc levou 40min pra ajustar na orelha do paciente, posicione o garfo no arco do articulador, mande o paciente morder e perceba que o tempo de ajuste esfriou a godiva. Remova da boca e leve ao coador gigante novamente 😦

Godiva em bastão: Acenda a lamparina. Aqueça o bastão direto na chama, até plastificar, mas não pode queimar. Adapte pequenas porções na periferia da moldeira individual e com ela ainda plástica, ponha na boca do paciente. Enxugue a lágrima que vai se formar no canto do olho do coitado. Repita várias vezes. Se ele deixar 😦

Alginato: Espatule na proporção recomendada pelo fabricante, que nunca é precisa. Coloque na moldeira, tentando equilibrar a meleca sem que ela escorra. Ponha na boca do paciente. A consistência não pode ser nem “muito mole de vomitar” nem “muito duro que não copie nada”. Repita a operação mais umas 12 vezes, ou até que o professor não enxergue nenhuma bolha.

Forrador de HCa: Dispense no bloco de espatulação duas pequeniníssimas porções de base e catalizador. Ponha uma quantidade de cada tubo pq nunca, jamais se saberá quem endurece quem. Misture com o colocador de hidroxido de Ca (muito inteligente esse nome), limpe a primeira porção, pegue uma pequena quantidade e leve no fundo da cavidade que deve estar seca. Comece tudo de novo pq já endureceu.

Amálgama: Pese  limalha de prata e mercurio na balança de Crandall (sim, nada de amalgamadores), leve as porções para o gral. Triture com o pistilo até que a mistura comece a subir pelas paredes. Passe a mistura para um flanela e torça a fim de remover o mercurio residual, que pode ficar “residual” na sua roupa, mão, bancada. Com o auxilio de um porta amálgama, leve pequenas quantidades a cavidade. Comece pelas caixas proximais. Condense com condensadores de numeros crescentes. Use o brunidor pra aflorar o mercurio excedente (de novo). Espere até ouvir o “grito do amálgama” e comece a esculpir. Perceba que ele endureceu e não vai esculpir mais nada. Fique tranquilo, vai ficar uma porcaria, mas vc conserta com a broca, ou tenta :/  Ahhh! Vc lembrou de forrar a cavidade com verniz, não é?

Cimento de policarboxilato (Durelon): Porcione pó e liquido. Espatule. Leve ao redor do dente para complementar o isolamento absoluto. Reze. Ele sempre, sim sempre, voltará preso na espátula. Material do tipo: gruda em tudo, menos onde precisa. A guta percha em bastão tem a mesma feliz propriedade, assim como o cimento cirurgico.

Cimento de Fosfato de Zn: Ponha pó e liquido na  proporção de uma medida #3 para 3 gotas, numa placa de vidro fria. Gelada é melhor. Mas não pode estar molhada, claro. Divida o pó em 2 partes. Uma dessas partes em 2 partes e novamente uma dessas em 2. Repita a divisão mais duas vezes :/ Vc obterá então 8 partes diferentes. Comece espatulando a menor com o liquido e vá juntando as outras em ordem crescente, até terminar, e se não tiver endurecido vc pode usá-lo. Muito fácil e objetivo.

RAAQ (resina acrilica ativada quimicamente)/ Tecnica de Nealon: Coloque monomero num dappen e polimero em outro. Molhe as cerdas de um pincel numero zero no monomero e depois pegue uma pequena quantidade de pó com o pincel úmido, fazendo uma “perola” de acrilico na ponta do pincel. Acomode na cavidade a ser modelada (para nucleo) e vá acrescentando até atingir o formato desejado. Lembre-se que a resina acrilica é de rápida presa e que tem expansão de polimerização, portanto tire e ponha o material do conduto, em movimentos repetitivos antes que ele endureça, e nunca mais saia. Mas não pode tirar muito cedo pq senão ele endurece fora, e nunca mais entra. Se não der certo, comece de novo, mas pegue outro pincel, porque você esqueceu de limpar o que vc usou e ele endureceu. Dica: Compre caixas com 50 😦

E olha que tudo era feito em modelos, sem língua ou saliva pra atrapalhar.

Então, agora vc está aí, formado, dominando todas as etapas. Faça um minuto de silêncio e renda homenagens a esta cadeira. Afinal, tudo o que fazemos hoje, apanhamos muito pra dominar naquelas aulas.

E, na boa?

O alginato continua me dando baile 🙂

Em tempo: Durante a aula de moldagem, um colega moldava o outro. Uma das duplas achou que a presa do alginato estava muito demorada e chamou o professor. Susto!!!  A colega tinha carregado a moldeira com gesso 😦

Quais são os seus traumas com materiais? Conte pra gente nos comentários. É bom saber que não somos os únicos destros com duas mão esquerdas 🙂

Published in: on 28 de junho de 2012 at 12:55  Comments (5)  
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Odontologia Restauradora

 

Neste post, que não é inédito (já publiquei aqui), revisito o tema. 

Estes dias travei um diálogo via twitter com uma colega sobre o que era o sistema NUVA FIL™ da Kulzer, e então me dei conta da evolução das resinas vistas pelo usuário.

No caso: EU!

Em 1984 comecei a trabalhar como assistente de dentista. Para minha sorte, o colega era muito ligado nas novidades.

A resina de uso geral na época era a chamada pasta-pasta e os nomes comerciais de que me lembro era o Adaptic™ e Miradapt™.

Seu uso era exclusivo para dentes anteriores, até distal de caninos. O preparo tinha que ser retentivo já que a fixação era por embricamento mecânico. Nenhuma adesividade.

Cavidade pronta e limpa preparava-se a resina. Como o nome diz, eram compostas por duas pastas (base e catalizador).

A base era levemente amarelada, digamos que era algo perto do 66, e o catalizador branco.

Misturadas em partes iguais, era levada em posição e adaptada com tira de poliéster. Segurava-se até endurecer. Com brocas dava-se o formato mais próximo da anatomia original possível e polia-se com borrachas.

Com partículas grandes, eram muito porosas, o que favorecia o manchamento.

Tá, mas e se o dente não fosse 66?

Simples. A Miradapt™,  por exemplo, tinha corantes: amarelo escuro, claro, cinza e preto (que eu lembro). Era um exercício de advinhação. Na base você acrecentava uma pitada do corante que vc achasse que resultaria no final desejado. Podia ser mais que um. Tinha que lembrar de deixar um pouco mais escuro porque quando adicionasse  o catalizador clareava um pouco.

Tinha também uns corantes liquidos, parecidos com bond. Daí tinha azul, vermelho…

Simples não!!!

O colega já tinha o Sistema Nuva Fil™, mas usava pouco. Numa época que as importações não eram permitidas, era muito difícil comprar reposição. Mas era tudo de bom.

As cores seguiam a escala Vita™, Uhuhuhu! Mas não tinham dentina L A translucides desfavorecia a técnica. Mas pra época, tava bom demais.

Quando fui pra faculdade, os aparelhos já eram mais modernos, e as resinas ainda deixavam a desejar. Era preciso fazer um bisel muito largo pra mascarar uma Cl lll nos incisivos inferiores, por exemplo.

O aparelho da foto é do meu primeiro fotopolimerizador. A luz tinha a intensidade de uma vela, e quando o contato zinabrava eu limpava com um disco de lixa e ganhava uma sobrevida. Alta tecnologia!

Restauração direta posterior, só amalgama.

Teve uma fase, inclusive, que falava-se em “amalgama adesivo”.  Difundiu-se a idéia de ataque ácido, Bond e amalgama (!!!)

Os sistemas adesivos eram pra esmalte, e fazer ataque ácido em dentina era um sacrilégio.

Daí surgiu o primer; e atacar a dentina passou a ser indicação.

O Bond se uniu ao primer em uma só aplicação.

Hoje as resinas estão na 6º geração. As auto condicionantes. Tem até YO pra dentes clareados e outras bem firmes que permitem condensação e facilitam fazer o ponto de contato.

Eu uso as de 5º geração porque são mais abrangentes.

Pois é, a Odontologia Restauradora evoluiu mesmo!!!

Em tempo: A fonte da pesquisa, no caso ” soy jo”!

Published in: on 13 de março de 2012 at 21:17  Comments (2)  
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