Saúde de Dentista

 

 

Apesar de muitos pacientes não acreditarem, Dentista é um ser humano.

Quando somos jovens, tendemos a acreditar que nossas resistências e forças são intermináveis. Mas não são.

No caso de nós dentistas, o desgaste físico é grande e irrecuperável.

Num passado, que parece muito mais distante do que realmente é, a grande maioria dos dentistas, tinha como rotina começar cedo. Tomavam o café da manhã e iam almoçar em casa.   O consultório era fechado por volta do meio dia, e reabria as 14h.  O colega ia em casa, almoçava e ainda dava tempo pra um cochilo. Era comum que o final de semana tivesse inicio ao meio dia de sexta feira. O ultimo paciente era agendado para as 18h, e as 20h já estava em casa, de banho tomado e já tinha jantado.

Alguns, pela proximidade da casa com o consultório, tinham o hábito de ir trabalhar caminhando.

Neste ponto daremos um salto no tempo, e tentarei pintar com as tintas mais suaves possíveis, a nossa rotina atual.

Poucos de nós, e eu felizmente me incluo nestes poucos, tem chance de preparar e tomar o café da manhã em casa. Falta de tempo, pressa, praticidade, ou seja lá qual for o motivo, leva muitos a tomar um cafezinho da padaria, já próximo do trabalho. Ainda que esse cafezinho seja acompanhado de pão e manteiga, por exemplo, o ambiente agitado de uma padaria e o relógio correndo contra sua vontade, comprometem parte do aproveitamento.

Poucos colegas começam bem cedo, até porque o trânsito toma parte do tempo.

A agenda cheia e os encaixes (antes do primeiro e depois do ultimo) costumam emendar a manhã com a tarde, sacrificando o horário de almoço. E por almoço, com frequência, entenda-se um lanche na padaria.

O paciente que “trabalha” e por isso só pode vir no fim do dia, nos faz emendar nosso dia com a noite.

O que estuda, nos faz trabalhar aos sábados.

Chegamos em casa normalmente por volta das 21h e algumas/alguns de nós ainda tem que prepara o que comer. Cansados, frequentemente decidimos por um sanduíche.

A posição de trabalhamos, ainda que pareça confortável já que é sentada, não é nada ergonômica. A coluna não tem apoio e sofre por passar grande parte do tempo em giroversão, O pescoço sempre torto causa dores cervicais. Os braços trabalham sem apoio, o que leva a tendinites e bursites nos braços e ombros. A força concentrada nas mãos sobrecarregam punhos e dedos. Os olhos são vitimas da luz indireta e das constantes irritações por micro-organismos ou particulas voadoras. O ruído da alta rotação (motorzinho) afeta a audição. É a tão falada L.E.R. (lesão por esforço repetitivo).

Emocionalmente e mentalmente o degaste também é severo.

Costumo dizer que num dia de oito atendimentos, tenho oito patrões diferentes.

Pessoas que contratam os nossos serviços, e por isso esperam uma contra partida.

A cada paciente que entra no consultório temos que deletar toda a informação do anterior. Rever o planejamento. Executar o planejado e, com uma frequencia assustadora, mudar o planejamento.

Lidamos com a dor, e isso é MUITO difícil,

Muitos pacientes não entendem que as ciências da saúde não são exatas, e é comum precisarmos lidar com a decepção. Deles e nossa.

Não são poucos de nós que, no decorrer da carreira, se deparam com a ansiedade e a depressão.

Eu, posto isso tudo, até que tenho boa saúde.

Uma certa lombalgia, dependência do óculos, um pouco de dor nas articulações das mãos, muita ansiedade e tremores essenciais*.

Não estou aqui querendo pintar a Odontologia com as cores do inferno, e sei que muitas pessoas, das mais diversas profissões, enfrentam realidade parecida ou pior que a nossa, mas este post é pra alertar você que está chegando agora neste maravilhoso mundo, a se cuidar. E também, caso algum paciente leia, perceba que nós, ainda que o recebamos sorrindo (com nossos lindos dentes), somos seres humanos com necessidades iguais as deles. Nós também temos família.

Com um agravante: Nem sempre conseguimos ir ao DENTISTA com a frequência que gostaríamos. Casa de ferreiro…

Em tempo: Tem muito colega que consegue se manter fora dessa ciranda. Faço votos que você seja um deles

 

 

*Tremores essenciais – Distúrbio neurológico que afeta principalmente as mãos. É dito essencial por não apresentar uma causa definida. É da essência. Não tem cura e sim controle. Em algumas situações sinto como se tremesse por dentro. Situações de stress desencadeiam crises controladas com ansiolíticos. Longos períodos sem comer pioram, já que o tremor de fome fica mais intenso.  Fui diagnosticada há uns 7 anos, e pouco tomo remédio. Aprendi a lidar. 

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Published in: on 5 de setembro de 2013 at 18:40  Comments (6)  

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6 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Concordo plenamente… Muito bem esplanado!

  2. Muito bom o teu texto, parabéns!
    Você conseguiu descrever perfeitamente a nossa realidade.
    Também fui diagnosticado com tremor essencial e essa é uma das partes que mais me deixa chateado.
    Abraço

    • Olá Ricardo, na verdade eu aprendi a conviver com os tremores, mas fácil não é, principalmente no final da manhã quando a fraquesa por fome aumenta os sintomas. De um modo geral eu respiro fundo e tento me concentrar no que estou fazendo. Acredito que meus tremores não sejam dos mais severos. Pelo menos por enquanto eu prefiro ver como um disturbio neurológico nçao incapacitante. Segui as dicas da neurologista e tentei diminuir a carga de trabalho. Boa sorte e obrigada pela visita.

      • Eu também não vejo como incapacitante, não acho que a habilidade seja afetada, meu tremor é leve e também piora com a fome, raramente o paciente nota e se nota não fala, mas quando algum diz ” tá nervoso dr”, é péssimo. ..
        Mais uma vez parabéns pelo blog!

      • Rinaldo, eu nunca percebi se um paciente percebeu, mas quando estou muito tremula me adianto e comento o fato.
        Costumam encarar bem. Acho! Obrigada pela visita

  3. Às vezes fico a imaginar que sou o único dentista com tremor essencial… Como tem conseguido o controle sem medicamentos?


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