Materiais Dentários

Balança de Crandall, gral e pistilo

O cara que vai ao dentista pra colocar uma “massinha” no dente, ou um “pivot”, ou ainda uma “chapa”, não pensa, efetivamente, no material que será usado.

Pois é, nós pensamos. E como!!!

A cadeira de Materiais Dentários é mais uma daquelas que, se não tirava nosso sono, pelo menos atrapalhava!

Nela nós aprendemos a composição, indicação e contra indicação de tudo aquilo que usamos para devolver a saúde e função dos dentes.

Polímeros, ligas metálicas, gipsita, elastômeros, quelantes e vernizes.

Forradores, restauradores temporários, cimentos, restauradores definitivos, diretos e indiretos, tudo estudado no detalhe do detalhe.

E claro, tudo muito subjetivo, afinal, ainda não colocávamos a mão na massa.

Reação e tempo de presa, proporções, biocompatibilidade, materiais antagônicos.

Será que ainda se estuda os cimentos de oxido de zinco e eugenol tipo  I, II, II e IV???

Propriedades e composições devidamente aprendidas, vamos pôr em prática.

E como tudo na graduação, as aulas práticas eram sempre uma incógnita. Transformar em ação tudo que tínhamos em imaginação era temeroso.

Bora pro laboratório. Modelo nas mãos muita curiosidade e coragem. Era mais ou menos assim:

Pasta zinco enólica: Dispense partes iguais das duas pastas sobre a placa de vidro. Espatule bem até ficar homogênea. Preenche a moldeira individual, leve em posição e deixa tomar presa , remove e…  passa as proximas 4h tentando limpar a placa e a espatula. Muito utilizada para fazer depilação de bigodes.

Godiva em placa: Amolece a placa na água morna, num dispositivo muito prático, parecido com um coador de café gigante. Acomode na placa do garfo do articulador que vc levou 40min pra ajustar na orelha do paciente, posicione o garfo no arco do articulador, mande o paciente morder e perceba que o tempo de ajuste esfriou a godiva. Remova da boca e leve ao coador gigante novamente 😦

Godiva em bastão: Acenda a lamparina. Aqueça o bastão direto na chama, até plastificar, mas não pode queimar. Adapte pequenas porções na periferia da moldeira individual e com ela ainda plástica, ponha na boca do paciente. Enxugue a lágrima que vai se formar no canto do olho do coitado. Repita várias vezes. Se ele deixar 😦

Alginato: Espatule na proporção recomendada pelo fabricante, que nunca é precisa. Coloque na moldeira, tentando equilibrar a meleca sem que ela escorra. Ponha na boca do paciente. A consistência não pode ser nem “muito mole de vomitar” nem “muito duro que não copie nada”. Repita a operação mais umas 12 vezes, ou até que o professor não enxergue nenhuma bolha.

Forrador de HCa: Dispense no bloco de espatulação duas pequeniníssimas porções de base e catalizador. Ponha uma quantidade de cada tubo pq nunca, jamais se saberá quem endurece quem. Misture com o colocador de hidroxido de Ca (muito inteligente esse nome), limpe a primeira porção, pegue uma pequena quantidade e leve no fundo da cavidade que deve estar seca. Comece tudo de novo pq já endureceu.

Amálgama: Pese  limalha de prata e mercurio na balança de Crandall (sim, nada de amalgamadores), leve as porções para o gral. Triture com o pistilo até que a mistura comece a subir pelas paredes. Passe a mistura para um flanela e torça a fim de remover o mercurio residual, que pode ficar “residual” na sua roupa, mão, bancada. Com o auxilio de um porta amálgama, leve pequenas quantidades a cavidade. Comece pelas caixas proximais. Condense com condensadores de numeros crescentes. Use o brunidor pra aflorar o mercurio excedente (de novo). Espere até ouvir o “grito do amálgama” e comece a esculpir. Perceba que ele endureceu e não vai esculpir mais nada. Fique tranquilo, vai ficar uma porcaria, mas vc conserta com a broca, ou tenta :/  Ahhh! Vc lembrou de forrar a cavidade com verniz, não é?

Cimento de policarboxilato (Durelon): Porcione pó e liquido. Espatule. Leve ao redor do dente para complementar o isolamento absoluto. Reze. Ele sempre, sim sempre, voltará preso na espátula. Material do tipo: gruda em tudo, menos onde precisa. A guta percha em bastão tem a mesma feliz propriedade, assim como o cimento cirurgico.

Cimento de Fosfato de Zn: Ponha pó e liquido na  proporção de uma medida #3 para 3 gotas, numa placa de vidro fria. Gelada é melhor. Mas não pode estar molhada, claro. Divida o pó em 2 partes. Uma dessas partes em 2 partes e novamente uma dessas em 2. Repita a divisão mais duas vezes :/ Vc obterá então 8 partes diferentes. Comece espatulando a menor com o liquido e vá juntando as outras em ordem crescente, até terminar, e se não tiver endurecido vc pode usá-lo. Muito fácil e objetivo.

RAAQ (resina acrilica ativada quimicamente)/ Tecnica de Nealon: Coloque monomero num dappen e polimero em outro. Molhe as cerdas de um pincel numero zero no monomero e depois pegue uma pequena quantidade de pó com o pincel úmido, fazendo uma “perola” de acrilico na ponta do pincel. Acomode na cavidade a ser modelada (para nucleo) e vá acrescentando até atingir o formato desejado. Lembre-se que a resina acrilica é de rápida presa e que tem expansão de polimerização, portanto tire e ponha o material do conduto, em movimentos repetitivos antes que ele endureça, e nunca mais saia. Mas não pode tirar muito cedo pq senão ele endurece fora, e nunca mais entra. Se não der certo, comece de novo, mas pegue outro pincel, porque você esqueceu de limpar o que vc usou e ele endureceu. Dica: Compre caixas com 50 😦

E olha que tudo era feito em modelos, sem língua ou saliva pra atrapalhar.

Então, agora vc está aí, formado, dominando todas as etapas. Faça um minuto de silêncio e renda homenagens a esta cadeira. Afinal, tudo o que fazemos hoje, apanhamos muito pra dominar naquelas aulas.

E, na boa?

O alginato continua me dando baile 🙂

Em tempo: Durante a aula de moldagem, um colega moldava o outro. Uma das duplas achou que a presa do alginato estava muito demorada e chamou o professor. Susto!!!  A colega tinha carregado a moldeira com gesso 😦

Quais são os seus traumas com materiais? Conte pra gente nos comentários. É bom saber que não somos os únicos destros com duas mão esquerdas 🙂

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Published in: on 28 de junho de 2012 at 12:55  Comments (5)  
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5 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Adorei Celia… o tempo passa, o tempo voa… mas a Odontologia não mudou tanto assim. Me identifiquei muito com cada palavra sua… e #rialto.

  2. Verdade… Odiava o terrorismo da aula de materiais I e II é foram dois semestres….
    Me valeu de pouquissimo….
    Mas hj dá pra rir dos apertos….
    Tb tenho na turma um paciente sem bigode depois de uma moldagem com bala sete belo, ops pasta zinco enólica, uma tentativa de moldagem com gesso APESAR dos professores avisarem milhoes de vezes….
    Enfim, odonto ou vc ama, ou vc deixa….
    Bj Celia! Amei!

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  4. […] Excelente texto sobre materiais dentários. Você dentista vai se identificar muito (e rir demais). –> Odontostalgia […]


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