Anatonia

Qualquer aluno de área de saúde tem nas aulas de anatonia seus principais temores.

Tem sempre alguém que questiona: Mas você vai ter que mexer com cadáver. Não tem medo???

Eu particularmente, não perdi meu tempo com esse temor. Entrar na faculdade ou não, era a questão. Uma vez dentro, eu enfrentaria o que viesse.

Tive como todos a famosa aula trote (17/03/1986). Veteranos com jalecos, barba e óculos pra passarem credibilidade, passando uma lista de material cheia de ítens, que nós só saberíamos depois, absurdos. Seria cômico não fosse trágico. Um monte de adolescentes de cara borrada, cabelo picotado e farinha até dentro da roupa íntima, olhando pra lousa com ar de: Onde é que eu fui me meter???  :/

Mico devidamente pago, fomos dispensados e avisados sobre a aula verdadeira do dia seguinte: Anatomia.

No segundo dia  tivemos nossa primeira aula efetiva, e depois do intervalo, descemos pro laboratório. Lá fomos apresentados pelo Prof Luis Altruda a uma mesa com algo coberto por um lençol. Depois de uma breve exposição do que veríamos e do respeito que deveríamos ter pelas peças anatomicas, ele sugeriu que a peça fosse descoberta por algum de nós. Antes ele disse que se alguém ali não estivesse preparado para o momento, poderia ir embora, mas na próxima aula seria inevitável. Ninguém arredou pé, e alguém teve a feliz idéia de sugerir que ele mesmo levantasse o lençol. O que ele aceitou e o fez.

Lançou-se um silêncio sepulcral…

Salvo exceções eramos todos desconhecidos e os olhos ficaram fixos.

Como tínhamos sido bem preparados, vi alí uma peça anatômica. Seguimos então para a aula de laboratório propriamente dita, mas como era ossos, foi mais leve.  Fêmur, radio, ulna, tíbia, fibula, etc.

Se a aula tinha esta intensão ou não, nunca vou saber, mas acho que foi a melhor forma de apresentar os calouros. Ao fim do laboratório nós já éramos muito mais próximos. Naquele dia eu arranjei minha primeira carona, uma dádiva pra quem estudava no extremo sul da capital.

Não sei se houve alteração nesse item, mas na OSEC/UNISA as peças eram conservadas em grandes tanques de formol, e passada a fase dos ossos, o estudo no laboratório era invariavelmente acompanhado de lágrimas pelos olhos irritados com o cheiro forte. Raramente as peças eram de corpo inteiro. Essas peças eram “exclusividade” da medicina. A Odonto ficava com as peças já dissecadas e fatalmente parciais. Impressionava bem menos.

Entrar no laboratório, com várias peças inteiras, expostas lado a lado, impressionava muito mais.

Daí vieram as aulas de anatonia dental. Eu que havia feito prótese, já os conhecia, mas era muito engraçado ver os alunos procurando a diferença entre o 31 e 0 41, ou entre o 16 e o 26. Cúspides, fossas, paredes mais arredondadas para distal ou mais retas para mesial. De um modo geral só diferenciavam os incisivos centrais, os caninos  e molares, os outros eram apenas “dentes”. E a aula de escultura em bloco de cera??? Ao final tínhamos um festival de molares que mais pareciam amoras 🙂 (Inclusive os meus!!!)

Bons tempos!!!

Nunca fui boa nessa coisa de esternocleidomastoideo, veia cava superior, nervo oftálmico, ulna, tarso, esfenóide, milohíodeo, entre outros com nomes nada fáceis. Foi, ao lado de Bioquímica, minha pior matéria do primeiro ano. Mas passei!!!

Quanto as peças, apenas numa situação me emocionou.

Num dia, fora de horário de aula, pedi para o técnico de laboratório uma peça para estudar anatonia interna de abdomem. A peça que ele me trouxe era apenas de tronco com a cabeça e um braço. Até aí tudo bem, isso era comum, mas o que me marcou foi as unhas esmaltadas de vermelho. Naquele instante eu me dei conta de que, antes de estar ali, como peça anatomica, auxiliando a formação de dentistas, aquela peça tinha tido uma vida. Vaidosa, fez as unhas e esmaltou. Não sei como aquela peça chegou até o laboratório, mas fiquei pensando na nobreza da situação. Dizem que a maioria das peças são de corpos não reclamados, ou seja, ela estava ali ajudando a formar uma sociedade que pouco lhe foi favorável.

Respeitar a peça anatomica é respeitar a si mesmo.

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Published in: on 23 de abril de 2012 at 08:31  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Nunca tivemos uma preparação para encarar o laboratório de Anatomia. Aliás, foi uma disciplina muito conturbada na minha turma, que envolveu greve de professores de mais de 2 meses logo no primeiro período, pouca coisa de anatomia geral e muito auto-aprendizado, já que os professores se indispuseram com a minha turma. Mas, com toda a certeza, é uma disciplina muito aguardada pelos calouros!

  2. De fato, a anatomia foi uma das disciplinas mais temidas. E sim, eu também sofri com Bioquímica. Ótimo texto, me deu saudade da UFU. Beijo.

  3. […] Respeitar a peça anatômica é respeitar a si mesmo. –> Odontostalgia […]


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