Quando se entra numa faculdade de Odontologia, salvo algumas exceções, os estudantes acreditam que vão apenas estudar os dentes e suas doenças. Ledo engano!
O foco central é o sistema Estomatognático, ou seja, todas as estruturas envolvidas no processo da mastigação, deglutição, digestão, alem da fonação , respiração etc.
Cada função, para ser executada depende direta ou indiretamente da outra.
E quando não está tudo ok???
Doença sistemicas, más formações, heranças genéticas, as coisas nem sempre estão em harmonia. Temos então na faculdade uma cadeira que trata desses disturbios.
No meu tempo essa cadeira chamava Semiologia e Patologia.
Pacoccideóideomicose, miíase, amelogênese imperfeita, síndrome de Jögren, carcinoma epidermóide, parotidite, ameloblastoma, etc para falar de algumas alterações .
Foi nessa cadeira que tomamos o primeiro contato com os pacientes.
Ainda hoje lembro o quanto non sense era essa clínica.
Na real, era muito chato!!!
Nós esperávamos pelo contato com o paciente há meses. Fomos para nossa primeira clinica.
Todos de branco. Sapatos, calças, camisas ou blusas que davam um ar imponente. Na grande maioria era tudo novo, e por isso limpinho. Alguns desses sapatos foram a todas as clinicas e, imagine se puder, o estado deles ao final do quinto ano
Luvas, máscaras (nesse tempo não usávamos touca), um espelho, uma espátula de madeira e uma ficha de anamnese beeeeemmmmm detalhada.
Dados pessoais preenchidos, passávamos as perguntas de saúde, e aí, começavam os problemas.
Algumas respostas eram, digamos, inverdades.
Quantas vezes por dia o Sr. escova os dentes?
>Sempre que como (então o Sr come pouco pq escova pouco os dentes, heim?), ou 3x dia (seu dia tem quantas horas?)
Fuma?
>Um pouco. (Ã-hã!)
Há quanto tempo não vai ao dentista?
> Um ano. (Um ano luz!!!)
Com quanto tempo troca sua escova de dentes?
>Mais ou menos a cada 6 meses (a cada 6 janeiros, né!)
Mas o pior era a anamnese semiológica. Nem sempre o paciente entendia o que nós estávamos perguntando, e claro, nós também nem sempre sabíamos o que estávamos perguntando :/
As vezes tínhamos certeza que a resposta estava incorreta. Dizer que não tinham hipertensão, diabetes, cardiopatias, aterosclerose e etc., e terem, não era necessariamente mentira, eles apenas desconheciam.
O exame intra/extra oral era outra odisseia. Analisar simetria facial não é nada fácil.
Cor e textura dos tecidos. Motilidade lingual. Numero e posição dos dentes. Uso de próteses. Hábitos parafuncionais.
A saída do ducto parotídeo era frequentemente confundido com uma lesão.
Esse foi o nosso primeiro contato com o paciente.
Nessa cadeira aprendemos a ver o paciente como um todo. Como as disfunções, ainda que a distância, influem no equilibrio do sistema. Manifestações orais de doenças sistemicas e o comprometimento da saúde geral por disturbios bucais.
Foi nessa aula também que aprendemos, ou tentamos, auferir a PA dos pacientes. E nada de aparelho digital que o Sidney vende na Ultrafarma. Era na base de auscultar com estetoscópio e esfigmomanômetro os ruídos produzidos pela sistólica e diastólica. Demorávamos tanto que frequentemente os pacientes sentiam dormência na mão
É, tratar de dentes ainda estava longe do nosso dia a dia.










